Batman vs Superman, filmes de heróis, filosofia e reticências

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Os filmes de super-heróis estão em alta. A proeminência desse tipo de produção cinematográfica tem gerado opiniões divergentes, críticas e imensa euforia nos fãs mais engajados do gênero. ‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça’, estreou no circuito mundial no último dia 24, quinta-feira. O longa-metragem, dirigido por Zack Snyder (300, O Homem de Aço, Watchmen), com roteiro de David S. Goyer (Batman Begins) tem a duração de 2 horas e 33 minutos e conta o épico embate entre os dois maiores heróis dos quadrinhos, além de dar início na integração do universo cinematográfico da DC Comics. A produção rendeu nos seus primeiros dias a bilheteria de 424,1 milhões de dólares. É a maior estreia da história de um filme de super-herói. No Brasil, o filme arrecadou, de acordo com dados obtidos pelo site Omelete, 45 milhões de reais desde sua pré-estreia até o final da semana, deixando para trás fenômenos de público como ‘Crepúsculo’ e ‘Vingadores: Era de Ultron’. Com isso, o filme da Warner tem a maior abertura de todos os tempos em nosso país.

Nesse post, tento avaliar, sem grandes pretensões, a história do filme, a polêmica dicotomia estabelecida entre a crítica e a avaliação do público sobre a obra e também uma análise sobre esse ciclo do cinema que ainda deve ter alguns anos pela frente, diante do sucesso de bilheteria desse e de outros filmes como Deadpool, e a grande expectativa sobre o vindouro Capitão América: Guerra Civil, o longa solo da Mulher Maravilha, dentre tantos outros.

Day versus Night

O filme conta uma nova história para o primeiro encontro entre o homem de aço e o cavaleiro das trevas. As referências das hqs são percebidas ao longo da trama, porém, trata-se de uma nova realidade do universo DC. Nele, Batman (Ben Affleck) já atua há mais de 20 anos em Gotham City como vigilante e acompanha impotente os primeiros acontecimentos relacionados a aparição dos kryptonianos e sua batalha, narrados no filme O Homem de Aço. O cruzado de capa busca formas de deter o último filho de Krypton, que considera uma ameaça para a humanidade. Da mesma forma, Superman (Henry Cavill) também não aprova os métodos visivelmente brutais com que o morcego combate o crime. O antagonismo entre os dois personagens é alimentado, na espreita, por um Lex Luthor (Jesse Eisenberg), interessado na tecnologia e na genética kryptoniana e sedento por poder. Por outro lado, as intervenções da Mulher Maravilha (Gal Gadot) no filme caminham para tentar unificar os heróis contra uma ameaça maior.

O filme tem também rápidas aparições de personagens que devem integrar a Liga da Justiça, como o Flash, o Aquaman e o Ciborgue. Conta ainda com a introdução de elementos pertencentes ao universo de Apokolips, como os Para-demonios e o símbolo da equação anti-vida, o que leva a crer que o vilão Darkseid estará presente no filme da super-equipe.

Crítica versus público

As primeiras críticas sobre o filme não foram das melhores. No Rotten Tomatoes, site que reúne críticas dos principais veículos e disponibiliza uma média entre as notas positivas e negativas, Batman vs Superman: A Origem da Justiça está até o momento com 30% de desempenho. Na contramão da visão dos especialistas em cinema, estão os números já aqui citados de bilheteria em todo o mundo. Nas redes sociais também, o que é percebido é que quem foi assistir tem uma opinião divergente da crítica dominante.

“Enquanto muitos críticos detonam o filme, o público que nada tem haver com isso segue indo assistir e se divertir. Fui e gostei. Muitos críticos exigem muito desse filme, denotando que criaram uma expectativa muito grande, esquecendo que no final se trata de um filme de super-heróis, além de tratarem HQ’s quase como livros sagrados, com histórias e personagens que não podem ser adaptados para uma outra linguagem. Quem entrar nessa pode perder uma excelente chance de se divertir”. Esse é o comentário de um fã, numa publicação da página do site Omelete, no Facebook. Não é difícil buscar e achar mais desses que fazem coro contra a postura conservadora da crítica.

Parte dos julgamentos negativos parte sobre o excesso do tom sombrio do filme e dos exageros da direção sobre alguns aspectos como a violência do Batman, que é de longe a mais brutal de todas as versões do morcego no cinema. São também parte dos argumentos contrários, os erros na narrativa de Snyder, com bruscas reviravoltas, como, por exemplo, na forma como os heróis se unem para deter, junto com a Mulher Maravilha, o Apocalipse ou na inconstante trilha sonora do filme.

A conclusão do autor deste post (que foi assistir ao filme no dia da estreia, numa sessão às onze e meia da noite, porque não havia exibições legendadas mais durante o dia, fica o registro) é que como entretenimento e introdução do universo cinematográfico da DC o filme funciona bem. Não é como os filmes da Marvel Studios, infantilizados e com uma fórmula pronta para atrair um público ‘mais família’, por assim dizer. Tem elementos que confundem, como os citados acima, porém não diminui os méritos de trazer dois personagens tão míticos para o cinema de uma vez, uma tarefa que exigiu ousadia e muito planejamento, sem dúvida.

Heróis, cinema e filosofia

A controvérsia estabelecida, tanto sobre o grande número de filmes de heróis, quanto na análise de conteúdo dos mesmos é algo comum nos fóruns do tema. O Assunto é também debatido por diretores, produtores e até por filósofos contemporâneos.

Steven Spielberg, em setembro do ano passado, em entrevista para a Associated Press, fez uma declaração em que comparou o ciclo recente com os filmes de faroeste. “Nós estávamos lá quando os filmes de faroeste morreram e chegará um tempo em que os filmes de super-heróis seguirão pelo mesmo caminho. Não quer dizer que não haverá uma época em que os faroestes irão voltar e os filmes de super-heróis também voltarão”, comparou o diretor. “Eu apenas estou dizendo que esses ciclos tem um tempo finito na cultura popular. Chegará um dia em que essas histórias mitológicas serão suplantadas por algum outro gênero que possivelmente algum jovem cineasta está pensando em descobrir para todos nós”, conclui Spielberg.

Oliver Stone (‘Wall Street’), questionado sobre ‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça’ não mostrou muito apreço pelo filme e pelos personagens. Ao falar sobre uma cena do final da série Breaking Bad com a revista Forbes, Stone compartilhou suas ideias sobre violência no cinema: “É só nos filmes que você encontra esse tipo de violência fantástica. E isso infectou a cultura norte-americana; vocês jovens acreditam nessa merda toda! Batman e Superman, vocês perderam a cabeça, e nem perceberam! Pelo menos respeitem a violência. Não estou dizendo para não mostrarem violência, mas que a mostrem com autenticidade”.

O filósofo esloveno Slavoj Zizek, em agosto de 2012, publicou o artigo chamado “Ditadura do proletariado em Gotham City”, sobre o filme Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, de Cristopher Nolan. Nele, Zizek analisa que “os blockbusters de Hollywood são indicadores precisos da situação ideológica de nossa sociedade”. Essa constatação é feita a partir da visão de que a trama do filme narra uma espécie de revolução política e social, liderada pelo vilão Bane, e que esse processo seria uma metáfora grosseira dos movimentos de contestação que explodem pelo mundo, mais precisamente o movimento do Ocuppy Wall Street.

Entre polêmicas e as diversas versões de filmes que pluralizam o gênero, os filmes de heróis são também parte de uma fase criativa em Hollywood, em que os blockbusters são predominantemente adaptações oriundas da literatura, dos quadrinhos ou do vídeo game, por exemplo. É uma busca pela manutenção dos lucros da indústria cultural a partir de um público mais seguro e fiel, como o das histórias em quadrinhos.

Se Zizek acerta em sua afirmativa de que esses filmes refletem a situação ideológica de nossa sociedade, é preciso debater o perfil hegemonicamente mítico presente nos personagens de B v S. As referências a uma luta de Deus contra um homem, dia versus noite, conclamada pelo personagem de Eisenberg, dão um tom de uma grandeza acima da simples lógica desse tipo de história em que o objetivo é salvar o mundo. Não que salvar o mundo seja algo pequeno, mas já lugar comum no cinema.

B v S pode ser visto como uma história que metaforiza a aspiração humana em uma solução para seus conflitos através de seres (ou acontecimentos) extraordinários. A história da humanidade é repleta dessas simplificações da realidade, contadas por meio dos mitos e das religiões. Ainda nas correntezas do raciocínio de Zizek, a metáfora de B v S é provável que, mesmo inconscientemente, bem como os demais filmes de super-heróis, trate da situação de que esse mundo não vai bem e algo precisa ser feito. Porém, a salvação, ao que parece, não virá dos céus. Cabe ao próprio homem no mundo real moldar seu presente e futuro.

Bem, esse texto termina por aqui, numa silenciosa reticência, por não ter grande pretensão. Apenas era preciso falar desse filme não somente por seus números e recordes, mas por sua importância como acontecimento do mundo pop.

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