A poesia secreta de Caio Fernando Abreu

ARQUIVO 17/02/1987 CADERNO2  LITERATURA - Escritor Caio Fernando Abreu  FOTO JUVENAL PEREIRA / ESTADÃO
Foto: ARQUIVO 17/02/1987

Tendo como marca o intimismo, combinado de uma solidão urbana ao seu próprio modo (o de “sangrar” na escrita a-b-u-n-d-a-n-t-e-m-e-n-t-e), Caio Fernando Abreu é conhecido e reconhecido por obras como “Morangos Mofados”, “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso” ou “Onde Andará Dulce Veiga?”, clássicos da literatura brasileira dos anos 1980 e 1990.

Porém, é ainda pouco conhecida do público, a produção poética do escritor gaúcho, nascido na cidade de Santiago, em 1948. Nos últimos anos pequenos fragmentos de uma vasta quantidade de poemas foram inseridos em algumas coletâneas, como o impactante “Alento”, em “O Essencial da década de 1970”. Em 2012, a Record lançou “Poesias Nunca Publicadas de Caio Fernando Abreu”. Trata-se da reunião de nada mais nada menos que 116 poemas de Caio F. que nada tem a perder em relação aos seus extraordinários contos e “romances mobile”. Com a mesma sensibilidade, com o mesmo lirismo e o mesmo toque caiofernandiano.

Caio-Fernando-Abreu-década-1970-Arquivo-Pessoal

As prefaciadoras da obra, Letícia da Costa Chaplin e Márcia Ivana de Lima e Silva, são categóricas em afirmar a condição de Caio como um poeta secreto ao longo de sua vida:

“Mas, então por que motivo Caio nunca publicou seus poemas? Com exceção de alguns poucos, como “Gesto, prece”, publicado no jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, no final dos anos 1960, e “Oriente” e “Press to open”, publicados na década de 1970, no Suplemento Literário de Minas Gerais, nunca o escritor gaúcho trouxe a público sua produção poética. Quem sabe, ao efeito de Clarice Lispector, sua escritora favorita, negava publicamente este fazer poético, mas mantinha sua escritura secretamente. Os manuscritos guardados por ele mesmo comprovam que Caio sempre, desde o início de sua carreira literária, escreveu poesia. Seus primeiros poemas datam de 1968 e os últimos de 1996. Ou seja, durante toda sua trajetória, o Caio Poeta coexistiu ao lado do Caio Prosador e Dramaturgo”.

Numa visão geral, são textos poéticos que nada perdem para sua prosa em seu valor literário. Expressam ainda, de forma atual, o mundo que vivemos, de frustrações, vícios, hedonismo, consumismo, tentativas, paixões, noites, anjos, monjas, putas, sábados e céus de Saigon.

caioContendo exatamente produções poéticas dos anos 1960 até os anos 1990, o livro é dever de casa para os admiradores e devoradores da obra do autor de “Dama da Noite” e “Os Sobreviventes”.

E falando em “Os Sobreviventes”, finalizo esse post deixando dois poemas de Caio para degustação. O primeiro, também chamado “Os Sobreviventes”, como o conto de Morangos Mofados. O outro, que abre a coletânea, chamado “Prece”.

 

Os Sobreviventes

Os sobreviventes

às vezes ainda aparecem

em busca de papo

ou qualquer coisa assim.

 

Ainda trazem os cabelos compridos

duas ou três pulseirinhas

alguns panos coloridos

ou um incenso nas mãos.

 

Só os olhos mudaram.

Aquela loucura das pupilas

aterrizou, virou espanto

de ter virado espanto.

 

Pois um sobrevivente

nunca imaginou que pudesse um dia

virar sobrevivente de um tempo

e de si mesmo. Mas virou.

 

Pelas tardes, de repente,

os sobreviventes ainda aparecem

procurando nos meus olhos

o que nos olhos deles já não existe.

 

Mas nada encontram.

Faz tempo, rasguei as fantasias

pendurei os colares nas paredes

mandei o pano indiano pra lavanderia.

 

Nos reconhecemos assim

esbarrando pela noite ou pelas tardes

feito zumbis de almas para sempre perdidas

no sonho que se foi. E que não volta.

 

O ofício agora é navegar sozinho.

Sem razão, sem porto, sem destino,

sem irmão, nem mapa. Sobre-vivendo

à nossa própria morte. E isso é tudo.

 

Sampa, 23 de julho de 1979

 

Prece

prende-me no teu gesto

despojado e nu

isento de vozes

e reclames outros.

estrutura-me na lenta elaboração

do tempo crescendo

na busca dum tempo maior.

 

não me guardes

como quem permite

– mas como quem sabe e aceita

e nas madrugadas de rosas

preso em ti

estruturado em ti

recortado nas avencas das manhãs

nas frutas recusadas

das sarjetas das quitandas

– leva-me contigo

intrínseco no pranto e no pensar

e contudo livre

e contudo só.

 

eu em ti

asas abertas

sem grilhões

espaço pleno nos teus braços nus

como o que se tem

– mas nunca se completa.

 

Fevereiro de 1968

 

 

Um poema bônus…

 

 

Amanhã começa agosto.

No sul, as paredes mofam em silêncio.

Faltam cinco meses para o fim da década.

Nada mudará. Ficaremos um pouco mais cansados.

Mas nada, nada mudará.

 

Há cachorros loucos vagando pelos becos

alguns suicídios talvez, pelos banheiros, e velhos

que não resistirão.

Minha avó dizia sempre

– não sei se passo deste agosto.

E não passou.

 

Num susto a mão vira o calendário:

Cecília desapareceu no mundo

Rafael aprendeu a brincar com o coração alheio

Paula faz cara de nojo e viaja para Nova Iorque

Ju não escreveu, nem escreverá.

Tudo já faz tanto tempo. Eu sigo acreditando.

 

Mas no sul

as bergamotas estão mais doces do que nunca

a umidade invadiu todos os cantos da casa

meus olhos amanhecem inchados de pranto nenhum

e secamente

inventariam marcas, desgostos, rostos perdidos,

corações mofados, roupa cinza na guarda da cadeira.

 

Amanhã começa agosto

outra vez. E continuamos.

 

30 de julho de 1979

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