A Carta ao Jovem Messias Marciano da Cidade Porto dos Corações Vazios

Para Raoni, Adnoel e Igor

O que sabes tu, menino de oxigênio, das gotas de luminosidade pelo sol das manhãs, dos perfumes das asas dos anjos de aço, das formas plurirrevolucionárias do tempo, dos odores que crescem dos pelos suados da filosófica política estética artística, da contravenção das drogas que usas como enfeites da casa de bonecas rutilantes e carnívoras, do câncer gótico no jardim das cavernas desexcitadas também chamado de coração? Ou o que sabes tu, das canções que emanam dos xilofones de marfim e dos ossos dos urubus e das oficinas do caos que convulsionam serenamente nas redações de todos os jornais da via láctea? Nem tu nem eu sabemos nada do incêndio que estupra os ossos do nosso espírito de história, das nossas vozes consumadas desesperadamente pelo silêncio dos antigos museus que não dizem nada da falta de coerência de nossos suicidas que se atiram convictos e proletários do precipício das nossas gargantas. O que sabes tu, infância da contracultura? Tu que nem sabes da sexualidade do raio laser que dispara sabores enfrutescentes nas narinas mecânicas de toda a população da China. Tu realmente não passas de uma grande e confusa incógnita ilógica de redundâncias alegóricas fragmentadas e espalhadas pelo salão oval da remetamorfose interna da estátua que guarda consigo todos os elementos da razão em códigos que ela pode apenas entender, porém jamais se decifrar ou traduzir. Menino de oxigênio, observa pela matriz da tua existência, os astros conectados pela rede telepática, telefônica, teleperformática. Olha pelo olho da tua tecnofobia tua tecnofilia oxigenada pelo teu oxigênio subliminar que derramas infinito e eterno pelo oceano-lago do teu conhecimento cimento, que não anda nem dorme, que de enorme é pequeno, de infinito é finito, que de claro é escuro. Tua música aleijada ecoa ainda gaga por nossos ouvidos e por nossos olhos impressionados com nosso medo ateu de não crer em profetas poetas. Tua canção é amarrotada com pétalas de menstruação do resto das estrelas que sobreviveram ao terremoto galáctico e anfíbio. Menino de oxigênio, acorda para tua realidade de luta de classes que encravam, escavam, enterram no teu coração o desavanço perfeito da celebração da inconsolável extinção que assobia serena por sobre o teu cadáver maduro de manga no chão.

Seguiu para o trabalho desviando-se dos noticiários. Apenas seguia sua jornada canhota, piterodactila e marciana. Era manhã de um sol fraco e retardado na Cidade Porto. Como se o céu estivesse prestes a ficar amarelo. Naquele dia, todos os seres humanos receberam aquela mensagem em seus celulares, notebooks, no rádio e na televisão. Especialistas das mais diversas áreas se debruçavam em decifrar o significado astrológico, científico, poético ou profético da carta. Ele apenas seguia para o trabalho, pois tinha oito horas de jornada para cumprir.

Macapá, maio de 2006.

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